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Evitar açúcar nos primeiros dois anos de vida pode reduzir risco de doenças crônicas, apontam estudos

Endocrinologista pediátrica explica como a alimentação nos primeiros mil dias influencia o metabolismo e a saúde ao longo da vida

A alimentação oferecida nos primeiros anos de vida pode ter impacto duradouro sobre a saúde metabólica. Evidências científicas mostram que a introdução precoce de açúcar na dieta infantil está associada a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças crônicas ao longo da vida. Por isso, especialistas defendem que o consumo de açúcar adicionado seja evitado nos primeiros dois anos de vida.

Segundo a endocrinologista pediátrica Marília Barbosa, essa fase corresponde ao chamado período dos primeiros mil dias, que vai desde a gestação até aproximadamente os dois anos de idade. Nesse intervalo, ocorre uma intensa programação metabólica, na qual fatores nutricionais podem influenciar o funcionamento do organismo no longo prazo.

“Os primeiros anos de vida são uma janela crítica de desenvolvimento. O que a criança consome nesse período pode influenciar o metabolismo, a formação da microbiota intestinal e até a regulação do apetite no futuro”, explica a especialista.

A recomendação de evitar açúcar nessa fase é respaldada por entidades internacionais e nacionais de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta que crianças menores de dois anos não consumam açúcar adicionado. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também recomenda evitar a oferta de açúcar, mel, melado e alimentos ultraprocessados nessa faixa etária.

Estudos sobre programação metabólica precoce indicam que exposições alimentares nos primeiros mil dias podem influenciar processos fisiológicos importantes, como sensibilidade à insulina, metabolismo energético e controle da saciedade. Uma revisão publicada na revista científica Nutrients aponta que padrões alimentares ricos em açúcar na primeira infância podem favorecer alterações metabólicas associadas ao desenvolvimento de doenças crônicas na vida adulta.

Além disso, pesquisas mostram que o contato precoce com alimentos muito doces pode moldar preferências alimentares ao longo da vida. Crianças expostas frequentemente ao açúcar tendem a desenvolver maior preferência por alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, o que aumenta o risco de excesso de peso.

O problema ganha relevância em um cenário global de aumento da obesidade infantil. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de 39 milhões de crianças menores de cinco anos estavam com excesso de peso em 2022. Levantamento da Federação Mundial da Obesidade aponta que cerca de 38% das crianças e jovens brasileiros entre 5 e 19 anos de idade já vivem com sobrepeso ou obesidade, colocando o Brasil acima da média global, que é de 20,7%. As projeções indicam que, se os números continuarem no mesmo ritmo, o país pode chegar a 50% de crianças e adolescentes com excesso de peso até 2040.

Para Marília, evitar açúcar nessa fase não significa adotar uma postura radical, mas priorizar alimentos naturais e respeitar o desenvolvimento do paladar da criança. “O paladar também é aprendido. Quando a criança cresce consumindo alimentos naturais, como frutas e preparações caseiras, ela desenvolve uma relação mais equilibrada com o sabor doce”, afirma. Segundo a endocrinologista, essa escolha simples pode ter impacto importante na prevenção de doenças ao longo da vida. “Quanto mais cedo protegemos o metabolismo da criança, maiores são as chances de ela desenvolver hábitos alimentares saudáveis e menor é o risco de problemas metabólicos no futuro”, conclui.

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